Da feira da Beira Mar à tapiocaria de Messejana: os modos de vida como atração pública


Conhecer um lugar é ter acesso a sua cultura, entendida também como modos de vida. Por isso, a história dos indivíduos, expressa em seus trabalhos, torna-se um atrativo para além da materialidade do patrimônio em si.

Joyce do Nascimento e Jéssica Maria

Fortaleza faz parte da região nordeste. Isso não diz pouco. Lembrada como uma das mais pobres regiões do país, a distinta área é reconhecida por suas peculiaridades. E o clima semiárido, apesar de dificultar a vida de quem trabalha de sol a sol, não esmorece a gente que faz do seu modo de viver uma atração pública.

Entre o artesanato e a culinária, a Capital possui polos que defendem essas tradições. No litoral norte, a orla da avenida Beira Mar conserva uma das mais importantes feiras de artesanato de Fortaleza. Já na zona sul, Messejana é conhecida por suas tapioqueiras.

A Feira de Artesanato da Beira Mar

A Feirinha da Beira Mar é um patrimônio cultural da cidade tombado na gestão da prefeita Luizianne Lins. Organizado em uma estrutura que agrega 633 boxes, o comércio de artesanato ocupa 200 metros do calçadão da praia do Meireles.

Todos os dias, por volta das 17h, os permissionários começam a montar seus quiosques. Os produtos são os mais diversos representantes do trabalho dos artesãos cearenses. Lá encontram-se bordados e rendas, peças em couro, artefatos para decoração etc.

O diversificado artesanato

O permissionário Edmilson Nogueira, 62, confecciona bolsas, cintos e tamancos em couro. Ele trabalha nessa atividade há 31 anos, desde o “tempo da calçada”, quando ainda não existia a atual pavimentação da orla e os boxes, espalhados, ocupavam 3,5 km da área.

Desse comércio, sustentou família e formou filho, conta ele, orgulhoso. E relembra a história da feira: “Isso aqui, quem conseguiu pra nós foi a Maria Luiza Fontenele. Ela até falou que aqui é um local cedido pela Capitania dos Portos”.

Apesar de gostar do trabalho e do comércio já ter sido bastante movimentado, seu Edmilson sente-se discriminado. “Sempre houve uma discriminação contra feira. E aqui é uma coisa sem divulgação. O guia pega os turistas e só leva pra onde ele vai ganhar 10%. A gente não tem como pagar isso.”

Mesmo assim, há quem reconheça o valor desse artesanato. As irmãs Noraide Aguiar, 53, e Naide Sampaio, 57, turistas de Natal, pela primeira vez na feira, compraram peças de vestuário e calçados, destacando, sobretudo, os preços acessíveis. “Tem coisas parecidas com as de lá, mas aqui encontramos bem mais baratas”, diz Noraide.

Seu Edmilson conclui, com certo desgosto, que a Feira virou um passeio em detrimento das vendas. Ainda assim esse ponto de vista confirma a importância dessa atividade, que, em princípio, representa um modo de viver e sobreviver, mas que se constituiu em atração pública.

O Centro das Tapioqueiras de Messejana

O Centro das Tapioqueiras representa uma tradição há mais de 80 anos. Na década de 1930, iniciou-se, na beira da estrada de Messejana, a venda de tapioca, produto de origem indígena. O comércio se desenvolveu, e as mulheres que trabalhavam com essa atividade ficaram conhecidas como tapioqueiras da Paupina, por habitarem esse bairro.

Mas em 2002, o Governo do Estado realizaria a duplicação da via CE-040, onde elas ficavam, e, portanto, seria necessário retirá-las da estrada. Foram, então, realocadas no Centro tal como se conhece hoje, com 26 boxes, no bairro Messejana, há apenas 600 metros do antigo ponto.

A senhora Leonice Rodrigues, 51, foi uma das que recebeu um quiosque há 10 anos. Com seu marido, o senhor José Mário Martins, 61, e o apoio de familiares, eles mantêm o box Recanto do Sertão.

Diferentemente do seu Edmilson da feira, o seu José, mais otimista, considera o ponto bem divulgado e “muito atrativo para a clientela que chega do mundo todo”. Com entusiasmo, ele fala dos 70 sabores que fazem parte do cardápio e revela uma tentativa frustrada de fazer tapioca colorida. “Fica muito bonita. Eu comecei a fazer, mas ninguém se interessou”.

O senhor José Mário espera a clientela

O senhor José Mário espera a clientela

Sua esposa, dona Leonice, foi presidente da Associação das Tapioqueiras de Messejana por seis anos. Ela diz que hoje quer manter-se afastada do cargo, mas orgulha-se de ter conseguido melhorias durante a sua gestão. “O que eu queria ter feito, eu fiz. Quando a gente chegou aqui, quem vendia tapioca, não podia vender outra coisa. Eu que consegui essa modificação no estatuto”, explica ela.

Mesmo com o local em bom estado de conservação, ela acredita que poderia ter mais assistência do Governo. “As expectativas para a Copa de 2014 são boas, mas talvez a estrutura não comporte a demanda. Se a gente tivesse dinheiro, comprava um terreno aqui do lado e aumentava o estacionamento”, analisa.

De um hábito alimentar simples ao comércio que garante o sustento de famílias, a tapioca tornou-se um atrativo gastronômico de Fortaleza, com seu valor histórico e cultural defendido por pessoas que vivem dignamente.

Apesar disso, essa gente ainda espera o merecido reconhecimento por parte do poder público. “O que a gente queria era uma atenção maior do Governo”, reflete dona Leonice.

2 responses to “Da feira da Beira Mar à tapiocaria de Messejana: os modos de vida como atração pública”

  1. lidesealgomais says :

    Ei, professora a postagem entrou como sendo dia 8, mas nesse exato momento ainda nem é meia noite. Então, eu juro. haha, que postei dia 7, como você exigiu.

    • Naiana Rodrigues says :

      Sem problemas!

      Meninas, gostei do título, mas para um artigo acadêmico. Lembrem da coloquialidade, informalidade, palavras associadas ao cotidiano que o jornalismo requer.

      O abre, trata-se de uma citação? Se for, tem que se dizer de quem é o texto. O que não se constuma usar mto no jornalismo, sobretudo no jornalismo na internet, mas, no nosso caso, está permitido.

      Atenção para alguns errinhos de ortografia e pontuação.

      Gostei da abordagem meio antropológica que vcs deram para a pauta. Mas lembram que pedi uma fonte de cada tipo? Só consegui identificar dois tipos de fontes. Ficou faltando, ou o poder público, no caso da fonte oficial ou então um pesquisador, para assim termos 3 fontes diferentes.

      Vcs tb não usaram nenhum link, princípio básico para o jornalismo na internet.

      Agora, o vídeo ficou uma gracinha. A música fez todo o diferencial. Quem editou? Vcs mesmas?

      As legendas das fotos tb ficaram curtas demais, poderiam ter explorado alguma informação a mais que não estivesse presente na imagem, nem no texto.

      O texto, por sua vez, está mto prazeroso, fiquei querendo ler mais. O que é um grande mérito.

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